onde tem muita água
segunda-feira, 14 de outubro de 2013
Polegar Opositor
De repente a sensação de que tem algo ali, algo que não costuma aparecer tanto, o que que é? Que porra é essa? E o vento bate e quase carrega os pacotes e chovem uns frutos verdes da árvore e tudo no chão, espalhado. Na primeira tentativa de colocar as caixas no lugar, eureka! O que não costuma aparecer tanto, a sensação de estranhamento se explica: os dedos todos doem. Segurando as caixas de novo eles latejam, se fazem mais vivos do que nunca. Primata. Humano. Encéfalo desenvolvido e polegares opositores. Obrigada, genética, qualquer outra espécie não seria capaz de carregar aquela pilha de caixas, que agora está firme sob dedos orgulhosos da função que cumprem, que é aquilo pra que foram feitos e quase nunca lembramos. Agora sim, o polegar opositor é protagonista e executa sua tarefa de maneir_cataploft.
Merda de vida. Num último esforço, agarrou tudo de qualquer jeito em uma única pilha e correu até a esquina, porque olhar mais uma vez pra trás e ver o supermercado seria traumático. Mais cinco passos corridos e foi a vez dos polegares jogarem tudo no chão, gritando de dor, sentindo a resistência do ar como se fosse um muro invisível (malditos exercícios de física do ensino médio que mandavam sempre ignorar a resistência do ar.). Assusta-se um transeunte que vai a poucos metros à frente. É um tremendo olhador, ao que parece, pois leva quase 11 segundos pra dizer qualquer coisa. É gago. Ahn? Ah, não, obrigada, não precisa. Sério, tudo bem, eu tou carregando isso desde muito longe (mentira, há uns 300 metros, mas ele não precisa saber). Ainda olha por uns instantes, as caixas olham de volta. Vira e vai embora, nunca saberá do poder primata que tem.
É uma reta curta, que termina numa subida também curta, porém arriscada, por motivo de: carros passando. Carros que não poderei ver enquanto carrego o fardo que me tampa a vista do lado direito por completo. Mas vamos. Devagar.
Na terceira e última parada antes de subir, o mendigo dorminhoco ataca novamente. No meio do caminho, atravessado. Curva para a esquerda, então e a ladeira passa sem que se veja nada, nem carros, nem chão, nem frente ou trás, nem pintores do prédio do outro lado da rua, que já pararam de pintar faz tempo e só observam o espetáculo. Finalmente o portão. A mão esquerda nunca mais será a mesma; os dedos tremem tanto que a fechadura entorta, mas dane-se, porque agora o que se vê é o lado de dentro, a escadaria. (Se isso fosse um jogo de tarot, A Escadaria seria O Enforcado.)
Venta mais. Resistência do ar. Resistência das mãos. Do cabelo todo enfiado no olho. Quantas caixas será que tem aqui? Av. Voluntários da Pátria, 314-Porto Alegre, RS e embaixo a sequência de números do CEP CNPJ PEPSICO BRASIL LTDA. Tem uma Voluntários da Pátria em POA.
Uma única parada, causada pelo vento (porque agora os dedos são fortes e não sentem nada além do tremor violento), que derruba metade do conteúdo espalhada pelos degraus. Sísifo. Camus. Kafka. Seus filhos da puta, duvido vocês terem carregado trezentas caixas da pepsico ltda portalegre quatrocentos e noventa e quatro degraus acima. Sai, sai todo mundo daí que talvez fique mais leve.
No último pique, o topo, o outro portão, a rua de casa. Correndo que nem criança no Natal e que ganhou presente grande. O reflexo no vidro de um carro: cara-de-indigente. O mesmo carro acelera, quase acerta, faz a volta e passa do outro lado, em câmera lenta, ao volante um espécime macho, óculos playsson, buzina, dá tchauzinho, caixas no chão, enfia a buzina no cu. Adeus.
Nos últimos cinquenta metros a promessa de usar mais a mão esquerda na vida e o ódio pela sociedade contra-canhotice, contra ambidestrice. Última parada a cinco ridículos metros do portão de casa. A pilha de caixas balançando contra o paralelepípedo, outro carro em sua direção. Calmamente volto à formação original de duas pilhas, abraço a primeira, o carro para a 30 centímetros e diz que aquela é a sua vaga, se eu posso dar licença, não, não posso, continuo, o portão destrancado, ponho as caixas com esmero no chão, volto pra buscar o resto, a vizinha do carro vesga de incompreensão, desculpe, é que minha mão não me deixa pensar.
Finalmente tudo dentro dos limites de espaço que habito, o 375 da Engenheiro Coelho Cintra em que o carteiro enfia a correspondência e o marcador de gás toca a campainha todo mês, mesmo sem precisar. As caixas agora também moram aqui a partir de agora e os polegares que renasceram e a mão esquerda que nunca mais será a mesma e os frutos verdes que caíram da árvore lá atrás há vários dias, ainda no meio da jornada e um novo sms e vejo a hora e na verdade isso não faz nem dez minutos.
terça-feira, 19 de março de 2013
A Grande Parada
Não é que as pessoas sejam todas iguais, é que elas são muito parecidas. Não por sua culpa, vejam bem, afinal, todas têm de comer, respirar, beber, cagar, produzir enzimas, fazer ciclo de krebs, etc etc. Ninguém escolheu fazer isso e, salvo raras exceções, creio que ninguém escolheria. Mentira, comer e beber, não por necessidade, mas por amor. Talvez outros escolhessem o ciclo de krebs, a respiração celular, o crossing over, mas entendam, escolheriam. Se suprir as necessidades básicas eu não sei o que eu tou falando, deixa pra lá, vou terminar com ~ ~
doce de banana.
Obg.
quinta-feira, 22 de novembro de 2012
Para o Papai Noel (porque fui uma boa menina esse ano)
Todas as minhas exigências são porque queria alguém para exigir algo de mim. E que me mandasse deixar o guarda-chuva em casa sempre, foda-se se o Rio é a nova Londres. Não é para ser um romance, não é para ser um caso de família. É alguém que sou eu e que conversa comigo sem eu precisar fazer a maluca que fala sozinha. Eu quero um clone, uma cópia, porque confio que seremos diferentes, que seremos que nem eu na tpm, com dupla personalidade.
E é isso, basicamente, uma vaidade degradante, o que eu mais espero pros próximos dias da minha vida; eu.
terça-feira, 21 de agosto de 2012
Mas que Nada
_Atá, carpedin...
O primeiro interlocutor:
_Malditos ateus!
segunda-feira, 30 de julho de 2012
Modéstiaparte
domingo, 1 de julho de 2012
terça-feira, 26 de junho de 2012
sábado, 16 de junho de 2012
Ressaca
O que estiver na casca não conta muito, é só a parte visível, que está para não estar, que mostra o que ninguém gostaria de ver, é um som meio chato, um gosto ruim que fica na boca, uma foto rasgada, uma lembrança tosca, um cachorro abandonado.
terça-feira, 5 de junho de 2012
"Jay Commited Suicide"
Ao chegar em casa, abria cuidadosamente um jogo de lápis aquarela 126 cores que ficava em cima do guarda-roupa de seu irmão mais velho. Há algumas semanas reparou que não necessitava mais usar a cadeira da sala, nem o banquinho da cozinha para alcançá-lo. Há alguns dias reparou que haviam algumas rugas ao redor de seus olhos e nenhum problema de adulto para resolver, caiu em depressão, tomou um pote de sorvete de flocos_o seu preferido_inteiro e sentiu-se melhor.
Foi no dia em que achou uma foto de sua época de infância debaixo da cama que resolveu que nem o tratamento psicológico mais poderoso poderia salvá-la; descobriu que nunca havia sido quem o exterior lhe mostrava. Vendou os olhos e abriu a porta de casa; saiu para a rua esperando ser arrebatada pelo primeiro veículo em alta velocidade que passasse.
Sua mãe a encontrou debaixo do sofá, logo em frente à cabaninha de lençóis que havia feito dois dias atrás, dormindo o sono pesado que só aqueles com menos de dez anos possuem.
quinta-feira, 24 de maio de 2012
Pão e Circo
Eu tenho uma ideia para uma foto que tem a Central do Brasil, um homem de barba que sorri, cinco horas das tarde e uma melodia grudenta. Folhas de sonho e jardim, ao mesmo tempo, sobrepostos na impressão, à meia luz. Havia também um punhal, que usei para matar o homem e me fez ficar sem foto, me fez esquecer dos mutantes, me fez odiar dias muito iluminados.
Eu tenho uma ideia para uma foto da qual me lembro às vezes, em manhãs especialmente iluminadas de sol, ou quando vou ao zoológico. Mas acordo ao meio dia e o funcionamento da Quinta da Boa Vista bate com meu horário de trabalho.
Hoje eu vi navios no ar enquanto sonambulava pelo Flamengo e tive uma ideia para uma foto que achei genial, mas então lembrei que havia matado meu amor um pouco antes de ter começado a gostar de Mutantes.
terça-feira, 8 de maio de 2012
Account Temporarily Unavailable
Câmbio, desligo.
quarta-feira, 28 de março de 2012
Sobre o Dia em que Sequestramos duas Pessoas
Veneno não era, talvez fosse apenas o que diziam que era, talvez fosse água da pia, que também se pode locar numa categoria de veneno, talvez fosse a melhor coisa que beberiam em suas vidas. Tomou um gole, ela primeiro, porque nem ao menos pensara em qualquer possibilidade, talvez nem quisesse água, apenas disse que queria para não discordar de alguma frase que não ouvira enquanto devaneava. Depois bebeu ele, devagar, com receio, hesitando a cada gole. Era água.
sexta-feira, 16 de março de 2012
Pros amigos
Meu cérebro está derretido. Permanentemente danificado. Não se sabe ao certo quanto tempo humano foi necessário para que essas frases fossem formuladas e penosamente escritas. Eu morri todos os dias em que pensei que poderia estar viva.
E viva a depressão pós-festa.
sexta-feira, 30 de dezembro de 2011
Festa de Família
quinta-feira, 1 de dezembro de 2011
SENHORAS E SENHORES
segunda-feira, 31 de outubro de 2011
Todos os Blogs
Em um dia perfeito para os peixes-banana, arrependi-me do que escrevo, vi que o paraíso era uma biblioteca de versos patéticos. As boas razões é que conjugavam-me. Percebi que se dependesse do LSD com torrada, ASA NISI MASA, tudo estaria perdido. Veio a mim a gratuidade da misantropia poética: o poeta apontava a lua e o imbecil olhava o dedo.
Atrás de casa passavam-se as cenas da vida, sua improbabilidade infinita, seus pequenos despropósitos. Desatei a fazer escritelas a partir das cores do simples, devaneando por essa coisa aí que eu chamo de...lacônico contraditório.
Graptós, a escrita em língua antiga. Absorvida e então guardada num baú de entulho em tons de vermelho. Assim vejo nós dois, outra vez, impelidos pela borrasca, subjugados pelo complexo alpha, somos cegos às avessas na casa de Yami.
Eu sou a boneca inflável, tomada pelo recorrente medo do receio em si e da pós modernidade, sou filha do Batman, rodopiando.
sábado, 23 de julho de 2011
AQUÉM
domingo, 3 de julho de 2011
machina
Eu descobri a verdadeira revolução industrial. A autoafirmação da espécie humana posta em prática: só é possível fazê-la funcionar movendo o polegar opositor e o indicador na mesma direção. Eis o famoso ‘movimento de pinça’. É, ainda com esta ferramenta, possível exibir fisicamente o status de civilização (Algo aqui que identifique o frio e a vergonha/culpa cristã), uma vez que a mesma serve de mecanismo que possibilita a confecção de cobertura para as partes que não devem ser exibidas, pois estas aludem ao ponto comum entre o homem e os outros animais: o órgão reprodutor.
A verdade: encontrei máquinas de costura de mão, por dez reais, no centro de Niterói. Estou usando pra fazer calcinhas.
cabra-cega
Digitava olhando apenas para as teclas, com extrema atenção. Como se elas contivessem algo de muito especial e importante, que merecesse ser olhado a fundo. Nas vezes em que tinha dirigir os olhos à tela do computador, o fazia de má vontade, era a distração desconcentrante, como se já não bastasse a interrupção da luz que ela emanava.
Queria mesmo era entender a função das letras, conseguir tocá-las fisicamente e só assim chegar ao plano da explicação _ esse plano que ninguém explica, o plano em que funciona a linguagem pela palavra e não tem essa enrolação dessas gentes que não, simplesmente não. Não nada; não se interagem, apenas falam, porque, ok, a linguagem é anterior, mas quando o que vem depois de fato vem, impõe-se com mais força que ela, que nunca foi realmente compreendida pela maioria de seus usuários. O que vem depois da linguagem torna-se maior que ela. Mas o uso que se faz disso é ínfimo, comparado ao seu tamanho e às possibilidades que permite. Queria mesmo era ser capaz de utilizar as letras de maneira que se expandam, atinjam o tamanho do que lhes vêm depois. É uma pena, devia haver compadecimento universal, quiçá sobrenatural; os deuses deveriam ajudar-nos. Porém assim desceriam ao nosso nível. Os deuses são é uns escrotos. Que não querem rebaixar-se ao uso da palavra.
domingo, 12 de junho de 2011
Fora de Si
A janela crescia em velocidade constante. Cada vez mais o lado de fora se aproximava assustador, as folhagens e ramos do jardim (que era verdadeiro pedaço sobrevivente de mata atlântica) entravam sem pedir permissão, invadiam pelas paredes, estouravam-lhe os globos oculares. Choro de criança. Agora a janela decresce. Volta ao lugar de sempre e se afasta para mais distante, até ficar pequenininha, cabendo em duas mãoszinhas. As plantas se retiram.
A menina abre os olhos, timidamente, ainda vermelhos de agressão e lágrimas; chora outra vez: não quer que o jardim vá embora. Mas esse pensamento dura um segundo; tudo acontece de novo, volta a janela, arregaçando-se. Estoura um vidro, a cortina se rasga em alguns pontos. É como se a imagem do que se passa refletisse o inteiror da garotinha que a tudo assiste por entre os cílios molhados. Se pudesse, cobriria as vistas com os dedos, mas a curiosidade é maior. Agora entram as flores do bouganville, que antes ficavam tão distantes, ela precisava correr um bocado para alcançá-las.
Começa a aprender, vê que, mal a natureza avança pela casa, já está prestes a retroceder. Portanto, não deveria, mas chora mais ainda: o movimento é infindo, lhe põe tonta. O vai-e-vem que acompanha não é dos mais normais. Parte dele acontece todo dia, ela morre aos tantinhos.
Parte outra finaliza agora. A cabeça enfim pende para o lado, as plantas desistem de voltar aos seus lugares; a última visão é de flores fúcsias tomando o ambiente e fazendo-se confortáveis, acompanhadas de verdes espinhos que lhe cortariam a face, não fosse alguém entrar no cômodo e interromper o movimento. Então vem o grito. Da compreensão de que a criança enforcara-se ao tentar enxergar além da grade da janela.