ele pensa e não diz
onde tem muita água
tudo é feliz.

domingo, 12 de junho de 2011

Fora de Si

A janela crescia em velocidade constante. Cada vez mais o lado de fora se aproximava assustador, as folhagens e ramos do jardim (que era verdadeiro pedaço sobrevivente de mata atlântica) entravam sem pedir permissão, invadiam pelas paredes, estouravam-lhe os globos oculares. Choro de criança. Agora a janela decresce. Volta ao lugar de sempre e se afasta para mais distante, até ficar pequenininha, cabendo em duas mãoszinhas. As plantas se retiram.

A menina abre os olhos, timidamente, ainda vermelhos de agressão e lágrimas; chora outra vez: não quer que o jardim vá embora. Mas esse pensamento dura um segundo; tudo acontece de novo, volta a janela, arregaçando-se. Estoura um vidro, a cortina se rasga em alguns pontos. É como se a imagem do que se passa refletisse o inteiror da garotinha que a tudo assiste por entre os cílios molhados. Se pudesse, cobriria as vistas com os dedos, mas a curiosidade é maior. Agora entram as flores do bouganville, que antes ficavam tão distantes, ela precisava correr um bocado para alcançá-las.

Começa a aprender, vê que, mal a natureza avança pela casa, já está prestes a retroceder. Portanto, não deveria, mas chora mais ainda: o movimento é infindo, lhe põe tonta. O vai-e-vem que acompanha não é dos mais normais. Parte dele acontece todo dia, ela morre aos tantinhos.

Parte outra finaliza agora. A cabeça enfim pende para o lado, as plantas desistem de voltar aos seus lugares; a última visão é de flores fúcsias tomando o ambiente e fazendo-se confortáveis, acompanhadas de verdes espinhos que lhe cortariam a face, não fosse alguém entrar no cômodo e interromper o movimento. Então vem o grito. Da compreensão de que a criança enforcara-se ao tentar enxergar além da grade da janela.

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Como Formei Meu Caráter

Primeiro, foi uma infância lânguida demais pra ser infância. E então anos e anos de Turma da Mônica, de que eu não consigo me livrar até os dias de hoje e acredito que nunca o farei, por uma questão do que chamo de opção, mas bem sei que é puríssimo apego infantil. desses que nunca se abandona, só quando se faz análise.
Eu nunca vou fazer análise.
Outro ponto formador de caráter: essa coisa da análise. Sempre fingi muito bem pra mim mesma que sou Freud e me analiso como ninguém. Mentira. Eu gosto mesmo é de falar. Falar merda, de preferência. E muita, por sinal. Vou parar de mentir, acho. E, consequentemente, parar de fazer a blasé. Falar pra caralho.
Tipo agora.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Apenas Fumaça


Eu consigo ver nitidamente o dia em que você me deixa. Ele começa com bom-dia, café e um cigarro. Beijinho e eu te amo. Você sai, eu fico mais um pouco, porque trabalho perto. Faço as palavras cruzadas do jornal, que é meu hobby de velha, como você diz. Ou dizia. Ou diria.
No seu trabalho, alguns fumam, você não. Ainda é muito novo lá, o chefe não aprovaria, seria uma afronta. Mas você morre de vontade. Apalpa os bolsos involuntariamente, só pra sentir o maço pela metade, o isqueiro. Nesse momento, não vê ninguém à sua volta; só existe tu e os teus cigarros. De repente, lembra de mim, com carinho, e sem saber que será a última vez. Fica pensando em como minhas covinhas se fazem nítidas quando trago, em meu sorriso ao cobri-lo de fumaça. Sorri. Nem nota que é observado.
Ao sair, em passos lentos, porém decididos, ela te chama pelo nome. Você se vira e a vê de verdade pela primeira vez. Pergunta se tens isqueiro e ri. É bonita, mais alta que eu, mais branca que eu, os cabelos mais compridos que os meus, pintados em algum tom de ruivo que lhe cai bem e que nunca ficará bom em mim.
Você tira um cigarro do maço e põe na boca, ela te acompanha. Acende primeiro o dela, depois o seu. Ela afirma convictamente que sempre soube que você fumava, era clara a sua expressão quando via os outros. Achava bonito você não fumar lá dentro do trabalho, ela sempre fumava escondida e já fora pega algumas vezes. Você dá um sorrisinho e esse é o sinal de que começa a gostar dela.
A partir desse momento, você não está mais comigo. Não em pensamento. Uma semana depois, nem fisicamente.
Agora é ela quem ocupa o outro lado da cama e saem juntos pro emprego. Ela fuma como ninguém.
Minto,_você pára pra pensar_ela não fuma mais do que eu. E por um breve instante, lembra de como costumava encostar o nariz bem de leve na ponta de meus dedos e sentir o cheiro do cigarro. E de que, ao fazê-lo, cerrava os olhos e virava fumaça.
Mas foi só por um instante, ela chama a sua atenção para algo que acontece do lado de fora do ônibus. Então você tenta lembrar do cheiro das mãos dela. É sempre doce, elas nunca se assemelham a cigarro ou fumaça; ela tem compulsão por um hidratante que tira todo o cheiro 'bom'.
Daí em diante, você repara o quanto ela é artificial. Que os cabelos são alisados, a maquiagem uma obrigação, a comida é sempre salada sem graça, nunca há espaço para um brigadeiro, as unhas são postiças, a risada forçada. Não que isso seja ruim, ela é linda, encantadora em tantos aspectos. Mas te atormenta o pensamento de que um dia, quando você pegar no sono, ela vire para o outro lado e tire os dentes e os coloque num copo com água. A situação piora: quando trepam, você só pensa se o orgasmo dela é falso ou verdadeiro. Ela é realmente uma boa atriz.
O tempo vai passar, você vai envelhecer um pouco, se acostumar com ela e voltar a dormir em paz. E só então ela vai esperar você pegar no sono, virar para o lado, abrir um zíper que vai da cabeça aos pés e sair da sua fantasia de outra. Nesse dia, quem vai dormir ao seu lado serei eu.


Niterói, algum dia entre 8 e 16 de setembro.

sábado, 20 de novembro de 2010

Paz Mundial

Por um momento eu imaginei a paz no mundo: as aulas do curso de Letras consistiam em ficar sorrindo-se uns para os outros após alguma leitura muito boa.

Escatologia

Vão todos à merda.
Quero que todos cheguem à ela e sintam-lhe o cheiro. Quiçá o gosto. Não, não é pra ninguém comer cocô. Só ter uma ligeira sensação.
Não que eu esteja odiando tudo e todos. Pelo contrário, estou amando. Você, sua mãe, seu cachorro (é, até seu cachorro, de que eu não costumo gostar), suas plantas, suas linhas da mão (mesmo que a do amor seja curta e um dia alguém tenha chorado muito por isso), seu tudo. O que quero dizer é que ame e deixe-se amar.
Mesmo que problemas que nem existem povoem sua mente. O inferno são os outros. Cheire a merda de outrem, então. E a compreenda. O inferno pode cheirar melhor. Quem sabe? Eu sei. Você pode saber, também.
Essa confusão diz respeito aos defeitos. Que não existem. Já falei (mentira, quem falou foi outra pessoa), o inferno são os outros. Porque você quer.
Enfim, a proposta era fazer uma metáfora com a merda, pra tentar fazer com que se entendesse alguém. Quiçá alguéns. Não parece tão difícil.
Agora.

domingo, 14 de novembro de 2010

Sem Dedicatória

É óbvio que eu li. Já disse isso pra alguém: eu leio tudo. Finjo que não, pra não causar constrangimentos, dores de cabeça, casos de amor platônico ao extremo etc.
Não comentei, nem pretendo comentar, para fazer sentido: amor não se grita.
Confesso que sou passível de mudar de ideia e estragar tudo. Foi Florbela que disse que gosta mesmo é do estrago? Porque essa frase não é só dos Hermanos, garanto. Na verdade, ela é minha, muito minha. Tanto que estou aqui, a dizer que não comento. Estou comentando.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Como Não Morrer

Ontem ia escrever uma 'carta de despedida' aqui, porque, de tanto que meu pai falou pra eu ter cuidado ao trazer minha bicicleta pra casa (ela tava na casa de um amigo, do outro lado da Ilha), que comecei a acreditar que ia sofrer um acidente. Daqueles que o jornal gosta. Mas acabei indo ver alguma coisa que não me lembro na TV e só fui dormir às duas, meio zumbi já. Esqueci.
Acho que isso me deu sorte. Ou azar, visto que o que me aconteceu foi tão 'bothering' (desculpe, acho que esta é a palavra que melhor cabe aqui) que, de agora em diante, vou considerar mais um acidente.
É só.